"Deus, eu não sei o que tá acontecendo comigo, tô tão, mas tão triste! E nem sei porque. Parece que tem uma angústia me devorando por dentro, por favor, me ajuda". Eu beirava a pré-adolescência quando murmurei essa oração entre lágrimas num igrejinha pequena de cidade do interior. Era dia de oração, minha reunião preferida, pouca gente e ninguém entre mim e Ele, a gente podia ficar à vontade. Ao chegar rodeei os rústicos bancos de madeira com o olhar buscando um lugar isolado, em que a gente tivesse privacidade pra conversar. Achei o recanto perfeito, bem lá no fundo, ninguém por perto, ainda sim eu falava baixinho, não confiava em ninguém além dEle. Finda a oração fui pra casa, sem resposta.
Algum tempo depois, algo entre uma semana e um mês do meu murmúrio em forma de oração, mamãe me mandou ir ao culto, emburrei-me, contestei, fui vencida pelo poderoso "sou eu quem manda aqui". Fui. Sentei o mais perto da porta que pude, não gostava daquelas reuniões, cheias de gente imperfeita, não precisava deles pra conversar com o Ele, eles só atrapalhavam. Deixei os pensamentos vagarem pra longe enquanto esperava o suplício acabar. Fui despertada de meus devaneios por um voz que procurava por alguém com uma descrição como a minha, a voz falava ao microfone, lá da frente, no lugar onde os preletores ficam. Foi aí que me dei conta de que a voz não procurava por alguém como eu, procurava por mim.
Não só procurava como exigia que eu fosse até lá, até sua fonte, um moço de fora, de um lugar grande como São Paulo ou algum outro. Um moço que ninguém conhecia. E que me chamava. Senti meu estômago remexer, mas não tinha jeito, todos olhavam pra mim, eu tinha de ir. Respirei fundo e cruzei o corredor da igrejinha o mais rápido que pude. Foi aí que ele começou a falar comigo, mas não era ele quem falava realmente, ele era o porta-voz porque quem falava comigo me conhecia, diferente do moço. Quem me falava dizia: "Eu ouvi quando você estava triste, quando aquela angústia estranha tomou conta de você. Tenho boas notícias, ela vai passar, pode ficar sossegada, minha filha". Ele tinha me ouvido de novo.
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